COLHERES

 

Colheres, espátulas, conchas, facas, garfos, estiletes, calçadeiras, potes, pinças, além de muitos objetos sem função utilitária aparente, compõem o universo das peças de bambu que faço.

De tamanhos bem variados, cada uma tem sua forma própria. Na sua maioria são peças fortes e robustas. Muitas são de delicadeza intrigante. Algumas são leves e inteiramente flexíveis. Quando agrupadas, formam conjuntos harmoniosos.

Feitas sem design previamente definido, elas resultam da espontaneidade do processo de trabalho, que tem por base o aproveitamento das especificidades de cada pedaço de bambu tomado como matéria prima. Procuro respeitar e realçar ao máximo as características do bambu. Assim, as peças sempre apresentam as fibras, na forma de linhas, pontos e elipses.Como não utilizo qualquer tinta ou verniz, as cores do bambu aparecem na sua condição natural. Descobri que, com o uso, as cores da madeira se tornam mais escuras e ainda mais bonitas.

É provável que nos últimos 17 anos tenha feito mais de 4.000 peças, centenas delas para dar de presente a pessoas amigas. Muitas foram destruídas por insetos vorazes. Na cozinha lá de casa, minhas colheres estão em maioria absoluta. Elas são ótimas para mexer doces e comidas, mas tem gente que tem pena de colocar em uso a que ganhou.

Acho muita graça das reclamações de quem esteja na fila de espera para ganhar uma delas. É bem comum que pessoas me perguntem, sempre sorrindo, sobre as minhas colheres – e isso é muito gratificante. Volta e meia recebo mensagens de gente interessada em comprar centenas de colheres para serem dadas como brinde. Dessas, morro de rir.

Devo ter em casa umas 2000 peças, quase todas guardadas em grandes caixas. Poderia ter bem mais se as brocas não gostassem tanto de bambu sem inseticida.

Percebi que ao pegar uma colher nas mãos, muitas pessoas começam, imediatamente, a fazer movimentos circulares como se, num passe de mágica, se transformassem em famosos cozinheiros, entusiasmados maestros ou hábeis espadachins.

 

ferramentas

PROCESSO DE TRABALHO

Venho tentando aprimorar as minhas práticas de trabalho ao longo do tempo. A observação atenta e a experimentação são atos fundamentais nesse processo. O trabalho que realizo é inteiramente manual, executado apenas com o auxílio de ferramentas muito simples e, muitas vezes, improvisadas.

Por diversão, busco a melhor maneira de obter planos exatos, superfícies polidas, curvas perfeitas, concordâncias suaves, formas harmoniosas, quase sempre com a ponta da lâmina de aço de minhas faquinhas.

A busca pela forma básica é realizada com a retirada progressiva de pedaços de bambu, cada vez menores. O polimento é conseguido por desbaste da madeira até conseguir obter uma superfície livre de irregularidades. Vez por outra esfrego a superfície acabada com o cabo de uma faquinha, o que a faz brilhar e ficar lisinha.

As peças são feitas mediante a conjugação de duas atividades complementares, que se sucedem ciclicamente, o tempo todo: identificar defeitos e tentar acabar com eles. Entenda-se por “defeito” tudo aquilo que desagrade aos olhos e ao tato: inadequações na forma e no acabamento de cada superfície, curva, quina, ângulo e pontas; imperfeições de simetria, concordância, equilíbrio, harmonia e beleza, e tudo o mais que, de alguma forma, desagrade, sugerindo que o trabalho continue mais um pouco.

Sempre procuro usar a ferramenta mais adequada para tentar acabar com cada defeito que encontre pela frente, como se estivesse resolvendo um delicado quebra-cabeça. Muitas vezes faço o serviço completo apenas com uma das minhas faquinhas, o que aumenta o desafio e a satisfação em conseguir um bom resultado.

Gosto muito de trabalhar enquanto converso com amigos na varanda de casa e O vídeo que fizeram para projetar durante uma exposição que participei pode ajudar a entender como é feita uma colher e acompanhar as diferentes etapas do processo.

<VÍDEO>

 

bambu

BAMBU

Da família Poaceae das gramíneas, o bambu é flexível, resistente e durável, além de bonito, moldável e muito gentil ao tato. Tem gomos, nós, paredes, fibras escuras, casca envernizada. Existem centenas de tipos de bambu, inclusive um com a casca preta, que estou começando a usar. Adoro ganhar bambu de presente. De qualquer tipo. O ideal é que eles sejam tirados durante a lua nova, no começo da manhã, nos meses sem ‘R’. O meu contato com o bambu remonta aos tempos da infância, quando os meninos faziam pipas e gaiolas, além de preparar as suas próprias varas de pescar.

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FERRAMENTAS

Trabalho com as mãos, usando somente ferramentas bem simples. Uma foicinha paraibana de grande estima, uma goiva feita sob encomenda, uma lâmina curva feita por um amigo cuteleiro, várias faquinhas trazidas da Europa. Uso também grosas, lixas, cacos de vidro e até mesmo a superfície de um muro que existe no caminho da praia. Para secar e envergar o bambu utilizo a chama do fogão ou o calor misterioso do forno micro-ondas. Uma luz transversa e um fundo escuro ajudam bastante na hora de avaliar o que precisa ser melhorado. As pontas dos dedos são ferramentas poderosíssimas para conferir se está tudo direito. Gosto de usar cada ferramenta no limite de suas possibilidades, que vou alargando com a prática e a experimentação.

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