Colheres, espátulas, conchas, facas, garfos, estiletes, calçadeiras, potes, pinças, além de muitos objetos sem função utilitária aparente, compõem o universo das peças de bambu que faço. De tamanhos bem variados, cada uma tem sua forma própria. Na sua maioria são peças fortes e robustas. Muitas são de delicadeza intrigante. Algumas são leves e inteiramente flexíveis. Quando agrupadas, formam conjuntos harmoniosos.

Feitas sem design previamente definido, elas resultam da espontaneidade do processo de trabalho, que tem por base o aproveitamento das especificidades de cada pedaço de bambu tomado como matéria prima. Procuro respeitar e realçar ao máximo as características do bambu. Assim, as peças sempre apresentam as fibras, na forma de linhas, pontos e elipses. Como não utilizo qualquer tinta ou verniz, as cores do bambu aparecem na sua condição natural. Descobri que, com o uso, as cores da madeira se tornam mais escuras e ainda mais bonitas.

Percebi que ao pegar uma colher nas mãos, muitas pessoas começam, imediatamente, a fazer movimentos circulares como se, num passe de mágica, se transformassem em famosos cozinheiros, entusiasmados maestros ou hábeis espadachins.

É provável que nos últimos 21 anos tenha feito mais de 4.000 peças, centenas delas para dar de presente a pessoas amigas. Muitas foram destruídas por insetos vorazes. Na cozinha lá de casa, minhas colheres estão em maioria absoluta. Elas são ótimas para mexer doces e comidas, mas tem gente que tem pena de colocar em uso a que ganhou.

Acho muita graça das reclamações de quem esteja na fila de espera para ganhar uma delas. É bem comum que pessoas me perguntem, sempre sorrindo, sobre as minhas colheres – e isso é muito gratificante. Volta e meia recebo mensagens de gente interessada em comprar centenas de colheres para serem dadas como brinde. Dessas, morro de rir.

fotos: Diana Abreu