Colheres no Banco – crônica

O primeiro convite me fora feito em tom de cobrança amistosa, durante uma solenidade. Como de costume, fiz corpo mole e desconversei. A cabeça estava completamente tomada por coisas da vida e do trabalho. Melhor seria deixar pra depois, pois é assunto relevante demais para misturar com qualquer outro. Digo isso porque sei muito bem que montar uma exposição mobiliza emoções e exige providências de toda ordem.

A segunda investida veio por escrito. As palavras eram amáveis, mas não deixavam margem para despistes nem permitiam postergações. Estava encerrado o prazo para mais um “devo, não nego, pagarei quando puder”. O convite incluía o pedido para que contasse o que sei e mostrasse como faço.

Muita gente sabe que gosto de fazer colheres de bambu, um servicinho que realizo quase diariamente, há muitos anos e sem preocupações. Pra mim, fazer colher é fácil, preparar uma exposição é que são elas, ainda mais em prazo apertado.

Achei prudente convocar a família inteira para tratar da produção. Cada qual na sua especialidade: a filha do meio para cuidar das questões de curadoria e montagem, a mais velha para tratar das peças gráficas, a caçula para fotografar as colheres, o primogênito para atualizar o site, o quinto filho para filmar a festa e, naturalmente, a mãe de todos eles, para arrumar cuidadosamente as peças nas vitrines.

Resolveu-se que as peças ficarão em mostruários abertos, sem a proteção de vidro ou acrílico, para melhor serem vistas. Umas tantas outras poderão ser tocadas.

As ferramentas de trabalho ajudarão a dar uma idéia de como as peças são feitas. As colheres que foram atacadas pelas brocas mostrarão que os insetos adoram comer bambu tirado fora de época. As que usamos na nossa cozinha poderão atestar que o que faço pode ter boa utilidade, que não é só pra boniteza, como me disse um vendedor de beira de estrada querendo valorizar o cesto de taquara que oferecia.

Sorte que hoje em dia boa parte do trabalho pode ser feita à distância: fotografa-se na varanda da casa, formata-se o catálogo em São Paulo para ser impresso aqui em Vitória. O texto da curadora de design foi enviado lá da Finlândia e os projetos do layout da sala e das vitrines foram preparados a bordo de um barco gaiola subindo o Amazonas.

A lista de providências se renova a cada dia: atualizar endereços e e-mails para enviar os convites; contratar marcenaria, imprimir fotos e palavras para fixar nas paredes, conferir as provas de cor na gráfica, resolver a iluminação, comprar uma camisa bonita e assim por diante. Nem imagino como seria fazer tudo isso na base da comunicação por envelopes, com a minha velha Rolleiflex e, sobretudo, sem o telefone celular.

Tudo isso está me fazendo lembrar das fortes emoções durante a preparação das primeiras feiras de mármore e granito de Cachoeiro, quando trabalhava no BANDES, de onde partiram os tais convites.

 

Alvaro Abreu
Vitória, 10 de novembro de 2010.

Publicada em A GAZETA.