Espera – crônica

 

Finalmente recebi o meu exemplar do livro que eu aguardava faz um bom tempo. Ele fora idealizado há exatos dez anos e desenvolvido durante os últimos vinte e poucos meses.

Trata-se de um projeto que surgiu da inspiração repentina que um renomado fotógrafo alemão teve ao ver e tocar algumas das minhas colheres de bambu, durante uma exposição em Munique, na Alemanha. A vontade dele se reacendeu há uns dois anos quando, por força de acasos e muitas coincidências, ele se viu, numa reunião de amigos saudosos, diante das peças que eu havia feito para presentear Pierre Mendell, o grande designer recentemente falecido. Agora, além da vontade, ele tinha uma razão especial para fazer o tal livro: comemorar os seus cinquenta anos de carreira.

Posso dizer que no começo achei curioso saber do interesse de alguém em fazer um livro sobre colheres. Parecia brincadeira. Depois, fiquei sem palavras ao ouvir a tradução da carta escrita à mão, pedindo minha concordância. Adiante, foi a vez da ingenuidade em acreditar que aquele profissional aceitaria fotografar aqui, seguida da coragem em mandar uma mala cheia de colheres, na bagagem de duas filhas animadíssimas, tendo como destino o seu super-equipado estúdio, em Hamburgo.

A incredulidade esteve comigo em muitas caminhadas matinais. Bastava considerar as distâncias, o tempo decorrido desde o único e rápido contato pessoal que tivemos, a inesgotável lista de temas que foram preteridos e, sobretudo, os muitos acontecimentos altamente improváveis que marcam essa história. O meu espanto chegou com o anúncio de que aquele homem bancaria os gastos com a realização de um livro com formato ousado, capaz de abrigar fotos de mais de um metro de comprimento. Quando soube que seis especialistas seriam convidados para escrever textos informativos e filosóficos, fiquei envaidecido, me achando, como se diz por aí.

O exemplar de minha filha Bebel, que vive em São Paulo, passou direto pela burocracia e foi entregue poucos dias depois de postado em Berlim. Ela, que havia ajudado a materializar a vontade de uma pessoa que nem conhecíamos, ficou radiante em segurar o livro nas mãos e entou me mostrá-lo pela internet.

Com a autoridade paterna somada à de interessado direto no que havia sido impresso, tratei de proibir que dissesse palavras ou mostrasse imagens. Preferi viver uma ansiedade plena por mais um ou dois dias e poder sentir as minhas emoções, livres de qualquer influência. Até então elas flutuavam ao sabor das notícias esparsas que chegavam da Europa sobre as providencias e acontecimentos que se sucediam lá. Jamais perguntei sobre datas ou decisões relacionadas com aquela publicação.

A esperança existe. Aqui ela aparecia duas ou três vezes por dia, antes da confirmação de que o livro continuava retido na alfândega, em Campinas. Tive que esperar mais dez dias enquanto o pacote aguardava a liberação. Com tantas negativas, a esperança foi dando lugar à irritação e, em seguida, à descrença, até que a curiosidade venceu o desapontamento. Pedi que me mandassem o exemplar de Bebel e o recebi na sala de embarque do aeroporto do Galeão, onde eu estava a caminho da Paraíba. Certamente foi uma cena inusitada para quem viu um homem barbudo, emocionadíssimo e impactado pela beleza das enormes fotografias de colheres em preto e branco.

Sempre soube, e isso me diverte, que tem gente que adora colheres e que isso pode provocar atitudes surpreendentes. Mas a determinação daquele fotógrafo superava, e com folga, tudo o que eu já tinha visto. Hans Hansen é o nome dele.

 

Vitória, 09.07.2012Alvaro Abreu

 

Escrita para A GAZETA