Exposição no Museu da Casa Brasileira, 2012 – folder

Impresso distribuído na exposição ‘Colheres de Bambu: Alvaro Abreu e Hans Hansen’, realizada no Museu da Casa Brasileira, São Paulo, em 2012.

 

Mãos, olhos, faquinhas e lentes

A história da mostra Colheres de Bambu – Alvaro Abreu e Hans Hansen começou há dez anos, num encontro fortuito entre dois homens maduros: um brasileiro, que faz colher de bambu e um fotógrafo alemão.

A exposição apresenta centenas de colheres de formatos e tamanhos bem variados e uma seleção das fotografias feitas por Hans Hansen para compor o livro Alvaro Abreu Bamboo, realizado pelo fotógrafo.

Com o trabalho esmerado das mãos, auxiliadas por ferramentas muito simples, e as imagens produzidas pelo olhar apurado com equipamento sofisticado, esta exposição celebra a afinidade dos dois artistas, percebida no cuidado ao fazerem o que gostam, com rigor e liberdade.

 

Carol Abreu

Curadora

 

Faísca

 

Havia lá um homem que entalhava colheres de bambu, disse Hans Hansen ao telefone. Ainda me lembro que esperei por mais uma frase dele, por qualquer coisa que destacasse essas colheres de todas as outras feitas em todo o mundo. Mas não. Não disse mais nada. Havia lá só as colheres, de bambu e entalhadas. Essa era a história toda.

Um homem já de uma certa idade que estava sentado à uma mesa, absorto no seu trabalho, rodeado pelas colheres que já tinha fabricado. Deve ter sido uma imagem esquisita ver alguém que, diante de todas as máquinas que tinham tirado o artesanato das mãos humanas para facilitar-lhe o trabalho, o havia resgatado.

Hans Hansen parou e olhou para o homem, mais pessoas pararam, formou-se um círculo em volta dele e mais tarde esses dois homens conversaram. O homem começara a entalhar depois de um infarto que tinha tido, cada dia uma colher, há vários anos; nenhuma colher é igual à outra. Só o material é o mesmo em todas, são todas feitas de bambu. Nunca vendeu nenhuma, raramente dá uma de presente, as faz para si.

Mas, desde aquele encontro, havia alguma coisa nessa história que não deixava Hans Hansen em paz. Estava contida na frase de que havia um homem que entalhava colheres de bambu, mas esse fascínio volatizava-se logo que tentava descrevê-lo mais exatamente. Mesmo assim, todo mundo a quem ele contava parecia compreender. Era como as pessoas se lembrassem de uma coisa antiga, cada uma da mesma maneira, e cada uma de uma coisa diferente.

Ainda hoje me parece inimaginável, em certos momentos, que em cada um exista alguma coisa que vá orientá-lo e guiá-lo, se confiar só nisso, se sentar e trabalhar nisso, dia por dia, frase por frase, ou colher por colher, sem ser descuidado. Foi nisso que tive de pensar quando Hans Hansen me contou a sua história.

Depois, ele abriu as suas fotos e mostrou-as, e então – eu também as vi.

 

Marcus Jauer, jornalista (em Alvaro Abreu Bamboo, de Hans Hansen)

 

Alvaro Abreu | o que faz colheres

Nasceu em Cachoeiro do Itapemirim, Espírito Santo, em 1947.

É engenheiro de produção, professor universitário e empresário.

Corta bambu diariamente, desde um infarto em 1995. Suas colheres já foram exibidas no Museum für Volkerkunde, em Viena, Áustria; na Exempla, em Munique, Alemanha, no Museu Vale, em Vila Velha, e no BANDES, em Vitória, ES. Mais de cinquenta delas estão no acervo do Die Neue Sammlung – The International Design Museum, em Munique. Vive em Vitória.

 

Hans Hansen | o fotógrafo

Nasceu em Bielefeld, na Alemanha, em 1940. Após ser aprendiz de litografia, estudou artes gráficas na Staatliche Kunstakademie, em Düsseldorf, com o Professor Walter Breker. Hans Hansen começou como fotógrafo freelancer e autodidata em 1962, especializando-se em fotografias de objetos. Desenvolveu projetos autorais e de publicidade para a indústria automobilística na Alemanha, França, Itália e EUA. Em 2002 realizou mostra individual no Die Neue Sammlung, em Munique. Fotografou Brasília ainda em obras. Vive e trabalha em Hamburgo, desde 1967.