PERDI MINHA FAQUINHA - CRÔNICA

 

Meus queridos amigos, tenho a lhes dizer que numa manhã de sábado perdi uma das minhas faquinhas preferidas, daquelas que uso para cortar bambu em busca de uma colher qualquer.

Lâmina já bem gasta pelo uso e com empunhadura inteiramente familiar. Pelas minhas contas, ela estava em atividade diária há uns bons quatro anos, cortando, raspando, furando, lascando e alisando pequenos pedaços de madeira.

Sem querer dramatizar, nem impressionar ninguém, parece que perdi um dos dedos da mão direita. É que tenho grande afeição por minhas ferramentas, sobretudo por uma foice paraibana, uma goiva feita em Valadares e umas poucas faquinhas trazidas do estrangeiro. Não é muita coisa.

Acho que a danada caiu do bolso da bermuda quando desci do carro, para assistir lá da encosta do Pesqueiro Grande, na Ilha do Frade, a largada da regata oceânica entre Vitória e São Francisco do Sul, em Santa Catarina.

Imediatamente depois que dei falta dela, voltei ao lugar na esperança de encontrá-la, mas só achei a bainha dela que fiz com gomo de bambu, exatamente onde havia estacionado o carro. Estava quebrada em quatro pedaços, provavelmente por um pneu desatento. Senti vontade de jogar aquela bermuda fora.

De volta em casa, desolado, tirei da embalagem uma faquinha exatamente igual e tratei de cortar uma fita de couro de porco e aplicá-la no cabo, como se faz com as raquetes de tênis, para melhorar a pega e garantir firmeza. Em seguida, afiei a lâmina até sentir que cortava com boa facilidade.

Embora o serviço tenha ficado perfeito, o resultado final não ficou nada satisfatório. Inteiramente nova, faltam, a esta faca substituta, as marcas do tempo e, sobretudo, do uso. Parece sapato novo.

Pensei em colocar um anúncio na sessão de “achados e perdidos” em jornal local de boa circulação. Afinal, aquele espaço é próprio para ser usado por quem perdeu algo de valor pessoal: documentos, guarda-chuvas, relógios e coisas do gênero. É, também, lugar próprio para homens aflitos declararem o sumiço de cachorros, bicicletas e tudo o mais que faz criança chorar de tristeza.

Mas achei melhor não alardear o acontecido. O assunto poderia virar motivo de conversa fiada e isso só iria piorar as coisas.

Sendo assim, só me restou pedir ao anjo da guarda, por quem tenho enorme gratidão, que também se interessasse pela sorte daquele objeto que me ajudara durante tanto tempo a fazer o que gosto.

Até hoje torço para que minha faquinha esteja nas mãos de homem trabalhador e cuidadoso, que faça bom uso dela e, sobretudo, que lhe dedique estima e consideração, como se deve fazer com todas as ferramentas.

Se não for querer muito, que seja alguém que goste de contemplar o mar, como o antigo dono dela.

 

Fica o registro.

 

Alvaro Abreu
28 de maio de 2009

Escrita para A Gazet