ALVARO ABREU BAMBOO – LIVRO

ALVARO ABREU BAMBOO – LIVRO

Trata-se de uma publicação em formato inusitado: 22 lâminas dobradas em formato leporello e guardadas em uma luva. Ao todo 20 fotografias de 108 x 28cm com colheres em tamanho natural, impressas em preto e branco. Acompanham seis textos em português, inglês e alemão assinados por profissionais de diferentes especialidades: Hannes Böhringer, professor - Berlim; Franco Clivio, designer - Zurique; Marcus Jauer, jornalista - Berlim; Axel Kufus, professor - Berlim; Peter Nickl, curador - Munique; Corinna Rösner, curadora - Munique. Veja abaixo o making off e a versão final de algumas das imagens que compõem o livro. 

Concepção: Hans Hansen, Hamburgo
Edição: Florian Hufnagl, diretor Die Neue Sammlung - The International Design Museum Munich
Fotografias: Hans Hansen | Assistência de fotografia: Felix Krebs, Hamburgo
Design gráfico: Annette Kröger, Pierre Mendell Design Studio, Munique
Coordenação: Bebel Abreu, Mandacaru, São Paulo
Impresso em Berlim, Alemanha, em 2012 - Tiragem única de 1.000 exemplares | ISBN: 978-3-00-037678-8


 

Carta para Hans Hansen

 

Meu prezado Hans,

A sua decisão de fazer um livro sobre as minhas colheres de bambu me fez pensar no poder das fotografias, na magia das colheres e na força do acaso interferindo em nossas vidas.

Aprendi que existe uma grande quantidade de pessoas que não prestam qualquer atenção às colheres que usam no dia-a-dia e que existem pessoas que gostam de colheres, tanto quanto gostam de outros objetos. Existem também, e isso é muito bom, umas poucas pessoas que adoram colheres. Um professor de joias, que formou uma belíssima coleção delas, me ensinou que a colher é o primeiro objeto que o homem utiliza na vida e que isso pode ajudar a explicar o fascínio que alguns de nós temos por ela.

A vida me mostrou que pessoas que são impactadas pelas formas simples dos cabos e das conchas talvez se lembrem das próprias avós na cozinha, fazendo um doce cheiroso. Outras, entusiasmadas com o que viram, fazem coisas surpreendentes: convidam para participar de exposição internacional, decidem manter colheres em museu de design e, como você, até resolvem fazer um livro de fotografia sobre elas. Acho que fazem isso por generosidade, para que outras pessoas também possam se encantar.

Saiba que a história deste seu livro começa com as fotografias em preto e branco de colheres, que a pintora Heidi Libermann, uma grande amiga, insistiu que eu fizesse pra ela. Pois foram aquelas imagens sem contrastes que Peter Nickl viu em casa de amigos, em Hamburgo. Ele gosta de contar que ficou eletrizado e que nunca mais se esqueceu do que vira. O convite que ele me fez para participar da edição de 2002 da Exempla, evento anual que celebra a excelência do trabalho manual, chegou exatamente no dia do meu aniversário, como um presente.

Foi lá que vi Corinna Rösner se aproximar das colheres com os olhos brilhando, com cara de quem, finalmente, encontrara algo para levar para compor o seu acervo do Museu International de Design, de Munique. Como não misturo dinheiro com colheres, acertamos que, em troca de um conjunto de colheres compridas, a minha filha Bebel, faria um estágio no museu, sob sua orientação.

Foi lá que ela conheceu Pierre Mendell e se apaixonou pelos seus cartazes. Achei muita graça quando soube que ele gostaria de ganhar exatamente uma dúzia de colheres. Atendi aquela encomenda cortando um velho potinho de bambu da cozinha de um amigo e recebi o agradecimento na forma de um pequeno coração vermelho, desenhado no centro de um cartão. Pelo que sei, foram exatamente essas colheres que você viu durante um encontro de amigos saudosos de Pierre, no estúdio dele, que Annette Kröger mantém ativo.

A sua carta falando da sua vontade antiga de fazer um livro me emocionou profundamente. Ela me trouxe de volta a sua figura esguia diante do balcão cheio de colheres, tocando cada peça com grande curiosidade. Saiba que guardei na memória a sua alegria ao se afastar de nós balançando no ar uma colher comprida que, por falha de comunicação, que você acreditou ter ganho de presente. Durante todos esses anos tenho contado essa passagem, fazendo graça daquele nosso encontro na Exempla. Pouco depois, soube que você era um fotógrafo e que estava expondo seus trabalhos na cidade.

Ao voltarem de Hamburgo trazendo as minhas colheres de volta, Bebel e Diana me contaram que você ficava rindo sozinho enquanto posicionava pacientemente as colheres para fotografá-las e que trabalhava sem qualquer preocupação com o tempo. Isso me fez sentir que somos pessoas parecidas e pensar que fotografar em estúdio e cortar bambu andando na praia são atividades de uma mesma natureza.

Que o livro lhe traga muitas alegrias, meu prezado Hans.

 

Alvaro Abreu

Vitória, junho de 2010


A Magia das coisas simples

Trecho do texto publicado em "Alvaro Abreu Bamboo"

Eu vi as colheres de Alvaro Abreu pela primeira vez na Feira Internacional de Artes e Ofícios 2002, em Munique. Elas me encontraram como um relâmpago, mesmo em meio a muitas outras impressões marcantes.

Éramos três curadores e o diretor da Neue Sammlung cumprindo um ritual que se repetia a cada ano: primeiro percorrer, sozinhos, a mostra especial e, ao final, avaliar em conjunto o que cada um havia encontrado de extraordinário, sempre sob a perspectiva: isso é digno de estar no museu? E nossa consciência estava aguçada pela iminência da abertura da exposição permanente dedicada ao Design na nova sede da Pinakothek der Moderne.

Em 2002 não houve discussão: as colheres de Alvaro Abreu pertenciam ao acervo do museu como as luvas pertencem às mãos. 

 

Corinna Rösner, Curadora


As Colheres do Senhor Abreu

 

Trecho do texto publicado em "Alvaro Abreu Bamboo"

Uma noite estava jantando em casa de amigos em Hamburgo quando apareceram ao lado do meu prato fotos em preto e branco. "Seria isso algo para uma exposição?" perguntou a anfitriã. Eu olhei as fotos e alguma coisa me eletrizou. Isso não acontece sempre e, quando acontece, não se esquece num piscar de olhos.

Ao limitar e concentrar seu trabalho a um único tipo de madeira e a um único tipo de objeto, Alvaro refinou seu senso de simetria, de proporção e a precisão das linhas. 

Ele acha que uma peça irradia harmonia quando nela se percebe a consistência das ideias com que foi sendo pensada e produzida.

Mesmo simples colheres de bambu podem se tornar grandes coisas - basta acreditar em sua magia.

 

Peter Nickl, Curador









 

Clipping

Clipping

Colheres de Bambu - CATÁLOGO EXEMPLA

Colheres de Bambu - CATÁLOGO EXEMPLA

Uma das participantes do workshop que realizei em Viena escreveu no verso de uma foto que me enviou de recordação que “os bambus e as pipas não lhe saem da mente”.

Acho que comigo sempre aconteceu algo muito parecido, a ponto de acreditar que o trabalho que realizo com o bambu tenha surgido das lembranças do tempo em que cada pescador, como eu, preparava as suas próprias varas de pescar.

Tenho vivo na memória o prazer de ir pessoalmente escolher os bambus e de trazê-los para casa. Depois de cortar os galhos com canivete, desentortava as varinhas com a ajuda da chama de uma vela, esquentando o lugar que precisasse ser retificado. O calor, além de amolecer o bambu, fazia brotar o cheiro doce da seiva quente, aumentava o brilho da casca e deixava marcas escuras na superfície. Para enfeitar a vara, fazíamos manchas escuras em todos os gomos. Naquela época as varas de pescar tinham personalidade. Iguais na essência, diferenciadas pelos detalhes.

Tudo aquilo exigia atenção para identificar as imperfeições e habilidade para corrigí-las. Qualquer descuido poderia provocar estragos irreversíveis. Perdia-se o trabalho e - mais do que isso - o sonho. Sim, porque terminado o serviço, passávamos um bom tempo testando o comportamento das varas em resposta ao esforço de peixes imaginários. Um pescador precisa conhecer o material de pesca, sobretudo os seus limites de resistência.

Envergar e retornar à posição inicial é uma capacidade natural dos bambus. A sua flexibilidade é excepcionalmente eficiente para amortecer o impacto dos arrancos dos peixes maiores. A forma da curva resultante, espécie de hipérbole do prazer do pescador, expressa a absorção da força do peixe e da resistência do homem. Quanto mais acentuada a curva, maior o peixe, maior a emoção.

No início das férias escolares, ficávamos horas produzindo nossos próprios instrumentos, enquanto conversávamos sobre pescaria. A habilidade com o canivete e com o calor do fogo ajudaram a criar minha fama de exímio fazedor de varas de bambu.

Foram as lembranças dessas pequenas emoções que décadas depois, após um infarto do coração, me fizeram recorrer instintivamente ao bambu. Deprimido e fisicamente debilitado, eu precisava encontrar alternativas para preencher o ócio forçado e para substituir as conversas sobre doenças, remédios e controle de colesterol. Precisava, urgentemente, ocupar as mãos em substituição ao cigarro. Na verdade, eu estava precisando me sentir capaz e, se possível, receber elogios.

Redescobri o bambu no sítio de um amigo.

Ao cortar um pedaço de bambu (que guardo até hoje) em diferentes planos, pude conhecer em detalhe o jogo de formas e de cores do seu interior e descobrir as suas fibras. Quando cortadas em planos de transversais, as fibras se mostram como pontos escuros e redondos. Nos planos oblíquos, formam pequenas elipses. Nos corte longitudinais, transformam-se em linhas retas.

Percebi que as fibras tinham dimensões variadas e que se distribuíam de forma organizada ao longo da parede do bambu. Mais finas e numerosas na parte externa, mais grossas e em menor quantidade perto do centro. Entre as fibras, existe uma espécie de massa mais clara e mais mole.

Fiquei extremamente satisfeito em desvendar o segredo da flexibilidade do bambu e a beleza escondida sob o verniz que cobre a sua casca. Ao mostrar minhas descobertas aos amigos, vi que ficaram contentes em me ver animado e falante, novamente.

Uma estrutura formada por gomos separados por nós confere ao bambu lugar único entre as madeiras. Os gomos cilíndricos têm as paredes formadas por fibras. A sua flexibilidade, a sua resistência a tração e uma grande variedade de diâmetro, propiciam o seu uso em funções e finalidades diversificadas. O brilho do verniz da casca, as tonalidades e a textura de sua matéria oferecem beleza e reforçam a sua originalidade.

Em casa, dormi pensando nos tocos de bambu que ganhei do dono do sítio e acordei ansioso para começar a cortar aquela madeira ainda úmida, de casca escura e miolo branco. Gomos de quase meio metro, com paredes grossas, exigiam ferramenta apropriada ao trabalho pesado.

Sempre tive atração pelas ferramentas e admiração por seus inventores. Gosto de tentar identificar as necessidade que determinaram o seu surgimento. Tenho especial predileção por uma pequena foice feita artesanalmente a partir de aço de mola de caminhão, que carrego comigo há quase 30 anos. Afiada, cabo anatômico e perfeitamente balanceada, ela é própria para golpes contundentes e certeiros.

Depois de amolar a foice com todo o cuidado, comecei a trabalhar compulsivamente. No início, cortava por cortar, pelo simples prazer de ver a lâmina entrando na madeira, tirando lascas. Em seguida, passei a tentar calibrar os golpes em busca de precisão e da satisfação de cortar no lugar exato. O braço dolorido pelo esforço repetitivo e a fraqueza geral do corpo dificultavam o controle dos movimentos. Aprendi que a troca de ferramentas possibilitava a mudança do esforço requerido, descansando a musculatura.

Com a lâmina de um canivete comecei a transformar as formas brutas geradas com a foice em superfícies e curvas regulares. Notei que a alternância das ferramentas aumenta o domínio do processo e permite refinar o formato das peças.

Da generosidade dos amigos vieram os primeiros elogios àquelas colheres grandes e toscas. Com o passar dos dias, aprendi que ao secar, o bambu perde volume e isto modifica a forma original das peças. Pela força da natureza o que é plano vai se tornando curvo e o liso, irregular. O acabamento perde qualidade, comprometendo a beleza dos objetos e a fama do artesão.

Um velho marceneiro me ensinou a usar o calor para acelerar o processo de secagem do bambu. Com isso, entraram em cena um pequeno maçarico e o forno do fogão a gás. O calor da chama lançada sobre a casca do bambu faz brotar uma espécie de líquido denso,  que ao ser limpo com um pano úmido, deixa à mostra um verniz brilhante. Na câmara aquecida o bambu expele jatos de vapor no sentido das fibras. O cheiro forte e doce, vindo da cozinha, fazia lembrar o tempo das varas de pescar e provocava protestos amistosos dos familiares.

O uso experimental do forno de microondas garantiu um importante salto qualitativo ao processo, permitindo um controle maior na secagem de peças pequenas.

Trabalhar o bambu seco exigia mais força física e ferramentas mais afiadas. Em compensação, permitia o uso de lixas e cacos de vidro para dar acabamento às superfícies, melhorar a concordância entre planos, aumentar a exatidão das arestas e obter curvas mais suaves e precisas.

Com o tempo aprendi que as brocas se alimentam da seiva do bambu que, dizem, contém algum tipo de glicose. Elas produziram verdadeiros túneis e canais em todas as peças feitas com bambu trazidos do sítio. Um pó branco, finíssimo, anunciava a presença dos insetos e a perda da peça.

A partir dessa constatação incorporei os ensinamentos da sabedoria dos homens do campo: o bambu, como as demais madeiras, deve ser cortado na lua minguante e de preferência no tempo frio, quando a quantidade de seiva está bem reduzida.

Aos poucos, fui experimentando outras ferramentas existentes na casa: serrote, serra de metal, formão, goiva, grosa, lixas, lâmina de cortar couro. Cada qual contribuía, a seu modo e dentro de certos limites, para ampliar as possibilidades de intervenção no bambu. Essa busca me levou a utilizar o piso da calçada, o vidro da porta da sala e a superfície inferior do tampo de granito da mesa.

A necessidade me fez desenvolver um suporte de lixa de forma cilíndrica, de diâmetro e consistência inteiramente variáveis, de grande utilidade na obtenção de curvas suaves.

O barulho provocado por uma lixadeira elétrica mostrou-se inteiramente desagradável e incompatível com o ambiente. Ao devolver aquela máquina ao seu proprietário, eu estava decidido a trabalhar com ferramentas simples, acionadas apenas pela habilidade das minhas mãos.

Como engenheiro industrial e especialista em desenvolvimento tecnológico sempre dependi do uso do intelecto, da razão e da objetividade. Naquele momento, afastado do mundo dos negócios, eu me sentia inteiramente desobrigado da racionalidade dos modelos e do rigor do pensamento. Movia-me, agora, condicionado somente pelas sensações próprias do trabalho manual, algo que muitas pessoas nem imaginam existir.

Aos poucos pude perceber que ao trabalhar sem saber onde se pretende chegar, a curiosidade substitui, com grande vantagem, a ansiedade e o medo de não conseguir obter o resultado desejado.

Percebi que cada atividade traz consigo uma sutil dimensão sensorial que oferece pequenos estímulos ao ego e orienta os movimentos subsequentes das mãos. A textura das superfícies, o ruído provocado pela lâmina e o cheiro de queimado sugerem o momento de parar ou de substituir a ferramenta. A precisão de cada golpe e a obtenção de uma reta perfeita são motivos suficientes para pequenos sorrisos. A destreza no uso de cada ferramenta amplia as possibilidades de criação.

Produzir superfícies côncavas com a ponta de uma lâmina, em substituição a uma goiva, exige muita paciência, mas é um ótimo desafio. A exigência da simetria pode parecer irrelevante para muita gente, mas serve para confirmar a capacidade de obtê-la sem a ajuda de instrumentos.

Gosto de produzir com movimentos regulares e repetitivos e acompanhar a evolução gradual dos seus efeitos. Me diverte usar as fibras do bambu como curva de nível e extrair com uma pequena lâmina, longas tiras do bambu em forma de caracol. Quanto mais fina e homogênea a espessura delas, maiores as chances de sorrir. O bambu tem que estar bem seco.

Experimentei a dor e a frustração de ter uma peça inviabilizada pela imprecisão do corte. Detesto ser obrigado a interromper o trabalho em função de um descuido ou erro meu.

Intuitivamente fui desenvolvendo aos poucos práticas que ajudam a minimizar os riscos de fracasso. Além de concentração das atenções no que está acontecendo, aprendi que cada pedaço de bambu é único. Sendo assim, é absolutamente indispensável conhecer e considerar as suas especificidades.

O colorido do verniz, uma irregularidade na seção do gomo, uma variação na espessura da parede, um mancha na casca, são partes de um mesmo jogo de quebra-cabeça.

No processo de criação de cada peça a atitude de valorizar algumas das características de um determinado pedaço de bambu se complementa com a de contornar seus defeitos.

Na maioria das vezes, as formas acabadas surgem da sucessão de operações de retirada de material alternadas com momentos de observação. Identificar as falhas é tarefa indispensável para se conseguir saná-las. A perfeição é a ausência de defeitos.

Observei, na prática diária, que os resultados obtidos com cada ferramenta são limitados e incluem pequenas imperfeições. Da mesma forma, percebi a grande utilidade da luz incidindo tranversalmente sobre a peça e do contraste com um fundo escuro para facilitar a identificação de pequenas falhas. As pontas dos dedos são delicados sensores na execução dessa atividade, mesmo no escuro. 

A minha bancada de trabalho é repleta de ferramentas, peças inacabadas, objetos sem utilidade aparente e muitos pedaços de bambu. Ela oferece muitas opções para quem pretenda brincar com madeira. Em silêncio, gosto de observar e organizar aquilo tudo como parte de um ritual de seleção do pedaço de bambu que vou desbastar. Nesse processo, curiosamente, a escolha parece acontecer sem qualquer razão determinante. Sem que eu saiba os motivos, alguns pedaços aguardam a sua vez há mais de dois anos.

A bancada fica ao lado da televisão da sala de estar, onde as pessoas da casa gostam se reunir. As atividades que não produzem ruído facilitam o prazer de trabalhar conversando e sobretudo ouvindo conversas dos outros. Em função dos ruídos da lixa e dos golpes com o porrete, sou convidado a me afastar. Em compensação, adquiri o direito de deixar rastros de bambu pelos demais cantos da casa.

Em função da portabilidade das ferramentas que utilizo e do tamanho reduzido das peças que faço, posso trabalhar no jardim, na varanda e na mesa da cozinha. Muitas vezes carrego ferramentas e bambus para a casa de amigos. Eventualmente produzo no trem, no cinema, em reuniões de trabalho.

Adoro fazer colheres na areia da praia deserta, durante minhas caminhadas diárias em busca de saúde. Gosto da sincronização do ritmo do corte com a cadência dos passos. Parece que isso ajuda a organizar o pensamento.

Nessas horas, quando estou sozinho, minhas atenções se concentram nos temas da vida, da empresa que tenho, nas pessoas de que gosto. É bom poder reter na mente a imagem da pessoa para quem estou fazendo uma peça. E isto pode durar horas seguidas. 

Como não vendo as peças que faço, o destino da grande maioria delas é o fundo de uma caixa de papelão localizada debaixo da minha bancada.

Algumas poucas, as mais longas, colocadas dentro de potes de bambu gigante, ajudam a tornar agradável o ambiente daquela oficina caseira. Gosto de tê-las por perto, testemunhando o que um dia consegui fazer com as mãos a partir de pedaços de bambu.

Acredito que durante os últimos 6 anos tenha feito mais de 900 peças, na sua maioria colheres e espátulas. Apenas três garfos e muitos objetos sem uso qualquer utilidade prática.

O curioso é que todas são diferentes umas das outras, seja por imposição do bambu, seja pela simples satisfação de criar formas diferenciadas. A identificação de qualquer similaridade entre peças gera automaticamente um impulso para extinguí-la.

Algumas delas são especialmente significativas em função da estética, da origem da matéria-prima, da dificuldade em gerá-las. Confesso que tenho predileção por aquelas que expressam as peculiaridades do bambu e que oferecem suavidade ao tato.

Me divirto vendo a reação as pessoas diante das minhas colheres. Algumas se limitam apenas a querer saber a utilidade, o destino, o valor comercial. Outras, as que prefiro, tocam as peças com as mãos e com a alma. Parece que uma espécie de mágica acontece e elas começam a fazer gestos e movimentos típicos do uso imaginado para cada uma delas. Para essas pessoas, as peças de bambu produzem sonhos e emoções, que as transformam em cozinheiros famosos e hábeis espadachins. Normalmente elas me pedem uma para levar consigo. Nego, embora constrangido, sempre prometendo que vou providenciar.

Definitivamente o bambu exerce uma espécie de fascínio sobre algumas pessoas. Talvez isso ajude a explicar o convite que recebi para apresentar minhas peças na EXEMPLA 2002.

Quem vê uma peça pronta, por certo não consegue imaginar que aquela é apenas a última das formas que foram sendo obtidas durante o processo. Antes daquela existiram mais de mil, que se perderam na sucessão dos golpes e no desbaste com lixa.

Digo isso porque a partir de certo momento do processo os objetos estão praticamente prontos e acabados. A espessura e o formato do cabo, as linhas das curvas das concha, o acabamento e regularidade das superfícies, a harmonia e o equilíbrio do conjunto podem sugerir que a peça esteja finalizada.

Gosto de constatar uma espécie de enigma que se faz presente no embate entre o estado permanente do quase pronto e o momento da finalização de cada peça. Uma delicada equação que quase sempre se resolve.

 

Alvaro Abreu
Vitória, 19 de dezembro de 2001

Crônica do meu primeiro infarto - Livro

Crônica do meu primeiro infarto - Livro

Isso foi o que pensei quando me vi diante dos pedaços de bambus que trouxera do sítio de um amigo e que está no meu livro “Crônicas do Meu Primeiro Infarto”:

“… sentado na cadeira de balanço, fui fazendo o planejamento das minhas atividades.Primeiro, com a ajuda do serrote, cortaria um gomo que estivesse bem retinho.Depois o desmembraria em quatro ou cinco tiras largas, cortadas no sentido das fibras.Em seguida escolheria um dos pedaços e começaria a desbastá-lo com golpes da minhafoicinha paraibana, em busca da forma primária, básica. Feito isso, seria a hora de usara grosa para melhorar gradativamente o formato do que fosse surgindo.Se necessário, utilizaria o velho formão que, para tanto, teria que ser amolado.O canivete teria uso certo na fase de acabamento preliminar, quando já estivessechegando bem perto da forma definitiva. Dali pra frente, seria a vez de usar um cacode vidro recém-quebrado para raspar as superfícies até que ficassem quase perfeitas.Com a ajuda de lixas, sempre da mais grossa para a mais fina, faria o acabamento final.Para entortar ou desentortar as peças que estivessem sendo produzidas, utilizaria a chama do fogão…”

Colheres no Banco - Crônica

Colheres no Banco - Crônica

O primeiro convite me fora feito em tom de cobrança amistosa, durante uma solenidade. Como de costume, fiz corpo mole e desconversei. A cabeça estava completamente tomada por coisas da vida e do trabalho. Melhor seria deixar pra depois, pois é assunto relevante demais para misturar com qualquer outro. Digo isso porque sei muito bem que montar uma exposição mobiliza emoções e exige providências de toda ordem.

A segunda investida veio por escrito. As palavras eram amáveis, mas não deixavam margem para despistes nem permitiam postergações. Estava encerrado o prazo para mais um “devo, não nego, pagarei quando puder”. O convite incluía o pedido para que contasse o que sei e mostrasse como faço.

Muita gente sabe que gosto de fazer colheres de bambu, um servicinho que realizo quase diariamente, há muitos anos e sem preocupações. Pra mim, fazer colher é fácil, preparar uma exposição é que são elas, ainda mais em prazo apertado.

Achei prudente convocar a família inteira para tratar da produção. Cada qual na sua especialidade: a filha do meio para cuidar das questões de curadoria e montagem, a mais velha para tratar das peças gráficas, a caçula para fotografar as colheres, o primogênito para atualizar o site, o quinto filho para filmar a festa e, naturalmente, a mãe de todos eles, para arrumar cuidadosamente as peças nas vitrines.

Resolveu-se que as peças ficarão em mostruários abertos, sem a proteção de vidro ou acrílico, para melhor serem vistas. Umas tantas outras poderão ser tocadas.

As ferramentas de trabalho ajudarão a dar uma idéia de como as peças são feitas. As colheres que foram atacadas pelas brocas mostrarão que os insetos adoram comer bambu tirado fora de época. As que usamos na nossa cozinha poderão atestar que o que faço pode ter boa utilidade, que não é só pra boniteza, como me disse um vendedor de beira de estrada querendo valorizar o cesto de taquara que oferecia.

Sorte que hoje em dia boa parte do trabalho pode ser feita à distância: fotografa-se na varanda da casa, formata-se o catálogo em São Paulo para ser impresso aqui em Vitória. O texto da curadora de design foi enviado lá da Finlândia e os projetos do layout da sala e das vitrines foram preparados a bordo de um barco gaiola subindo o Amazonas.

A lista de providências se renova a cada dia: atualizar endereços e e-mails para enviar os convites; contratar marcenaria, imprimir fotos e palavras para fixar nas paredes, conferir as provas de cor na gráfica, resolver a iluminação, comprar uma camisa bonita e assim por diante. Nem imagino como seria fazer tudo isso na base da comunicação por envelopes, com a minha velha Rolleiflex e, sobretudo, sem o telefone celular.

Tudo isso está me fazendo lembrar das fortes emoções durante a preparação das primeiras feiras de mármore e granito de Cachoeiro, quando trabalhava no BANDES, de onde partiram os tais convites.

 

Alvaro Abreu
Vitória, 10 de novembro de 2010.

Publicada em A GAZETA.

Espera - Crônica

Espera - Crônica

Finalmente recebi o meu exemplar do livro que eu aguardava faz um bom tempo. Ele fora idealizado há exatos dez anos e desenvolvido durante os últimos vinte e poucos meses.

Trata-se de um projeto que surgiu da inspiração repentina que um renomado fotógrafo alemão teve ao ver e tocar algumas das minhas colheres de bambu, durante uma exposição em Munique, na Alemanha. A vontade dele se reacendeu há uns dois anos quando, por força de acasos e muitas coincidências, ele se viu, numa reunião de amigos saudosos, diante das peças que eu havia feito para presentear Pierre Mendell, o grande designer recentemente falecido. Agora, além da vontade, ele tinha uma razão especial para fazer o tal livro: comemorar os seus cinquenta anos de carreira.

Posso dizer que no começo achei curioso saber do interesse de alguém em fazer um livro sobre colheres. Parecia brincadeira. Depois, fiquei sem palavras ao ouvir a tradução da carta escrita à mão, pedindo minha concordância. Adiante, foi a vez da ingenuidade em acreditar que aquele profissional aceitaria fotografar aqui, seguida da coragem em mandar uma mala cheia de colheres, na bagagem de duas filhas animadíssimas, tendo como destino o seu super-equipado estúdio, em Hamburgo.

A incredulidade esteve comigo em muitas caminhadas matinais. Bastava considerar as distâncias, o tempo decorrido desde o único e rápido contato pessoal que tivemos, a inesgotável lista de temas que foram preteridos e, sobretudo, os muitos acontecimentos altamente improváveis que marcam essa história. O meu espanto chegou com o anúncio de que aquele homem bancaria os gastos com a realização de um livro com formato ousado, capaz de abrigar fotos de mais de um metro de comprimento. Quando soube que seis especialistas seriam convidados para escrever textos informativos e filosóficos, fiquei envaidecido, me achando, como se diz por aí.

O exemplar de minha filha Bebel, que vive em São Paulo, passou direto pela burocracia e foi entregue poucos dias depois de postado em Berlim. Ela, que havia ajudado a materializar a vontade de uma pessoa que nem conhecíamos, ficou radiante em segurar o livro nas mãos e tentou me mostrá-lo pela internet.

Com a autoridade paterna somada à de interessado direto no que havia sido impresso, tratei de proibir que dissesse palavras ou mostrasse imagens. Preferi viver uma ansiedade plena por mais um ou dois dias e poder sentir as minhas emoções, livres de qualquer influência. Até então elas flutuavam ao sabor das notícias esparsas que chegavam da Europa sobre as providencias e acontecimentos que se sucediam lá. Jamais perguntei sobre datas ou decisões relacionadas com aquela publicação.

A esperança existe. Aqui ela aparecia duas ou três vezes por dia, antes da confirmação de que o livro continuava retido na alfândega, em Campinas. Tive que esperar mais dez dias enquanto o pacote aguardava a liberação. Com tantas negativas, a esperança foi dando lugar à irritação e, em seguida, à descrença, até que a curiosidade venceu o desapontamento. Pedi que me mandassem o exemplar de Bebel e o recebi na sala de embarque do aeroporto do Galeão, onde eu estava a caminho da Paraíba. Certamente foi uma cena inusitada para quem viu um homem barbudo, emocionadíssimo e impactado pela beleza das enormes fotografias de colheres em preto e branco.

Sempre soube, e isso me diverte, que tem gente que adora colheres e que isso pode provocar atitudes surpreendentes. Mas a determinação daquele fotógrafo superava, e com folga, tudo o que eu já tinha visto. Hans Hansen é o nome dele.

 

Vitória, 09.07.2012

Alvaro Abreu

 

Escrita para A GAZETA