Trata-se de uma publicação em formato inusitado: 22 lâminas dobradas em formato leporello e guardadas em uma luva. Ao todo 20 fotografias de 108 x 28cm com colheres em tamanho natural, impressas em preto e branco. Acompanham seis textos em português, inglês e alemão assinados por profissionais de diferentes especialidades: Hannes Böhringer, professor - Berlim; Franco Clivio, designer - Zurique; Marcus Jauer, jornalista - Berlim; Axel Kufus, professor - Berlim; Peter Nickl, curador - Munique; Corinna Rösner, curadora - Munique. Veja abaixo o making off e a versão final de algumas das imagens que compõem o livro. 

Concepção: Hans Hansen, Hamburgo
Edição: Florian Hufnagl, diretor Die Neue Sammlung - The International Design Museum Munich
Fotografias: Hans Hansen | Assistência de fotografia: Felix Krebs, Hamburgo
Design gráfico: Annette Kröger, Pierre Mendell Design Studio, Munique
Coordenação: Bebel Abreu, Mandacaru, São Paulo
Impresso em Berlim, Alemanha, em 2012 - Tiragem única de 1.000 exemplares | ISBN: 978-3-00-037678-8


 

Carta para Hans Hansen

 

Meu prezado Hans,

A sua decisão de fazer um livro sobre as minhas colheres de bambu me fez pensar no poder das fotografias, na magia das colheres e na força do acaso interferindo em nossas vidas.

Aprendi que existe uma grande quantidade de pessoas que não prestam qualquer atenção às colheres que usam no dia-a-dia e que existem pessoas que gostam de colheres, tanto quanto gostam de outros objetos. Existem também, e isso é muito bom, umas poucas pessoas que adoram colheres. Um professor de joias, que formou uma belíssima coleção delas, me ensinou que a colher é o primeiro objeto que o homem utiliza na vida e que isso pode ajudar a explicar o fascínio que alguns de nós temos por ela.

A vida me mostrou que pessoas que são impactadas pelas formas simples dos cabos e das conchas talvez se lembrem das próprias avós na cozinha, fazendo um doce cheiroso. Outras, entusiasmadas com o que viram, fazem coisas surpreendentes: convidam para participar de exposição internacional, decidem manter colheres em museu de design e, como você, até resolvem fazer um livro de fotografia sobre elas. Acho que fazem isso por generosidade, para que outras pessoas também possam se encantar.

Saiba que a história deste seu livro começa com as fotografias em preto e branco de colheres, que a pintora Heidi Libermann, uma grande amiga, insistiu que eu fizesse pra ela. Pois foram aquelas imagens sem contrastes que Peter Nickl viu em casa de amigos, em Hamburgo. Ele gosta de contar que ficou eletrizado e que nunca mais se esqueceu do que vira. O convite que ele me fez para participar da edição de 2002 da Exempla, evento anual que celebra a excelência do trabalho manual, chegou exatamente no dia do meu aniversário, como um presente.

Foi lá que vi Corinna Rösner se aproximar das colheres com os olhos brilhando, com cara de quem, finalmente, encontrara algo para levar para compor o seu acervo do Museu International de Design, de Munique. Como não misturo dinheiro com colheres, acertamos que, em troca de um conjunto de colheres compridas, a minha filha Bebel, faria um estágio no museu, sob sua orientação.

Foi lá que ela conheceu Pierre Mendell e se apaixonou pelos seus cartazes. Achei muita graça quando soube que ele gostaria de ganhar exatamente uma dúzia de colheres. Atendi aquela encomenda cortando um velho potinho de bambu da cozinha de um amigo e recebi o agradecimento na forma de um pequeno coração vermelho, desenhado no centro de um cartão. Pelo que sei, foram exatamente essas colheres que você viu durante um encontro de amigos saudosos de Pierre, no estúdio dele, que Annette Kröger mantém ativo.

A sua carta falando da sua vontade antiga de fazer um livro me emocionou profundamente. Ela me trouxe de volta a sua figura esguia diante do balcão cheio de colheres, tocando cada peça com grande curiosidade. Saiba que guardei na memória a sua alegria ao se afastar de nós balançando no ar uma colher comprida que, por falha de comunicação, que você acreditou ter ganho de presente. Durante todos esses anos tenho contado essa passagem, fazendo graça daquele nosso encontro na Exempla. Pouco depois, soube que você era um fotógrafo e que estava expondo seus trabalhos na cidade.

Ao voltarem de Hamburgo trazendo as minhas colheres de volta, Bebel e Diana me contaram que você ficava rindo sozinho enquanto posicionava pacientemente as colheres para fotografá-las e que trabalhava sem qualquer preocupação com o tempo. Isso me fez sentir que somos pessoas parecidas e pensar que fotografar em estúdio e cortar bambu andando na praia são atividades de uma mesma natureza.

Que o livro lhe traga muitas alegrias, meu prezado Hans.

 

Alvaro Abreu

Vitória, junho de 2010


A Magia das coisas simples

Trecho do texto publicado em "Alvaro Abreu Bamboo"

Eu vi as colheres de Alvaro Abreu pela primeira vez na Feira Internacional de Artes e Ofícios 2002, em Munique. Elas me encontraram como um relâmpago, mesmo em meio a muitas outras impressões marcantes.

Éramos três curadores e o diretor da Neue Sammlung cumprindo um ritual que se repetia a cada ano: primeiro percorrer, sozinhos, a mostra especial e, ao final, avaliar em conjunto o que cada um havia encontrado de extraordinário, sempre sob a perspectiva: isso é digno de estar no museu? E nossa consciência estava aguçada pela iminência da abertura da exposição permanente dedicada ao Design na nova sede da Pinakothek der Moderne.

Em 2002 não houve discussão: as colheres de Alvaro Abreu pertenciam ao acervo do museu como as luvas pertencem às mãos. 

 

Corinna Rösner, Curadora


As Colheres do Senhor Abreu

 

Trecho do texto publicado em "Alvaro Abreu Bamboo"

Uma noite estava jantando em casa de amigos em Hamburgo quando apareceram ao lado do meu prato fotos em preto e branco. "Seria isso algo para uma exposição?" perguntou a anfitriã. Eu olhei as fotos e alguma coisa me eletrizou. Isso não acontece sempre e, quando acontece, não se esquece num piscar de olhos.

Ao limitar e concentrar seu trabalho a um único tipo de madeira e a um único tipo de objeto, Alvaro refinou seu senso de simetria, de proporção e a precisão das linhas. 

Ele acha que uma peça irradia harmonia quando nela se percebe a consistência das ideias com que foi sendo pensada e produzida.

Mesmo simples colheres de bambu podem se tornar grandes coisas - basta acreditar em sua magia.

 

Peter Nickl, Curador