Uma das participantes do workshop que realizei em Viena escreveu no verso de uma foto que me enviou de recordação que “os bambus e as pipas não lhe saem da mente”.

Acho que comigo sempre aconteceu algo muito parecido, a ponto de acreditar que o trabalho que realizo com o bambu tenha surgido das lembranças do tempo em que cada pescador, como eu, preparava as suas próprias varas de pescar.

Tenho vivo na memória o prazer de ir pessoalmente escolher os bambus e de trazê-los para casa. Depois de cortar os galhos com canivete, desentortava as varinhas com a ajuda da chama de uma vela, esquentando o lugar que precisasse ser retificado. O calor, além de amolecer o bambu, fazia brotar o cheiro doce da seiva quente, aumentava o brilho da casca e deixava marcas escuras na superfície. Para enfeitar a vara, fazíamos manchas escuras em todos os gomos. Naquela época as varas de pescar tinham personalidade. Iguais na essência, diferenciadas pelos detalhes.

Tudo aquilo exigia atenção para identificar as imperfeições e habilidade para corrigí-las. Qualquer descuido poderia provocar estragos irreversíveis. Perdia-se o trabalho e - mais do que isso - o sonho. Sim, porque terminado o serviço, passávamos um bom tempo testando o comportamento das varas em resposta ao esforço de peixes imaginários. Um pescador precisa conhecer o material de pesca, sobretudo os seus limites de resistência.

Envergar e retornar à posição inicial é uma capacidade natural dos bambus. A sua flexibilidade é excepcionalmente eficiente para amortecer o impacto dos arrancos dos peixes maiores. A forma da curva resultante, espécie de hipérbole do prazer do pescador, expressa a absorção da força do peixe e da resistência do homem. Quanto mais acentuada a curva, maior o peixe, maior a emoção.

No início das férias escolares, ficávamos horas produzindo nossos próprios instrumentos, enquanto conversávamos sobre pescaria. A habilidade com o canivete e com o calor do fogo ajudaram a criar minha fama de exímio fazedor de varas de bambu.

Foram as lembranças dessas pequenas emoções que décadas depois, após um infarto do coração, me fizeram recorrer instintivamente ao bambu. Deprimido e fisicamente debilitado, eu precisava encontrar alternativas para preencher o ócio forçado e para substituir as conversas sobre doenças, remédios e controle de colesterol. Precisava, urgentemente, ocupar as mãos em substituição ao cigarro. Na verdade, eu estava precisando me sentir capaz e, se possível, receber elogios.

Redescobri o bambu no sítio de um amigo.

Ao cortar um pedaço de bambu (que guardo até hoje) em diferentes planos, pude conhecer em detalhe o jogo de formas e de cores do seu interior e descobrir as suas fibras. Quando cortadas em planos de transversais, as fibras se mostram como pontos escuros e redondos. Nos planos oblíquos, formam pequenas elipses. Nos corte longitudinais, transformam-se em linhas retas.

Percebi que as fibras tinham dimensões variadas e que se distribuíam de forma organizada ao longo da parede do bambu. Mais finas e numerosas na parte externa, mais grossas e em menor quantidade perto do centro. Entre as fibras, existe uma espécie de massa mais clara e mais mole.

Fiquei extremamente satisfeito em desvendar o segredo da flexibilidade do bambu e a beleza escondida sob o verniz que cobre a sua casca. Ao mostrar minhas descobertas aos amigos, vi que ficaram contentes em me ver animado e falante, novamente.

Uma estrutura formada por gomos separados por nós confere ao bambu lugar único entre as madeiras. Os gomos cilíndricos têm as paredes formadas por fibras. A sua flexibilidade, a sua resistência a tração e uma grande variedade de diâmetro, propiciam o seu uso em funções e finalidades diversificadas. O brilho do verniz da casca, as tonalidades e a textura de sua matéria oferecem beleza e reforçam a sua originalidade.

Em casa, dormi pensando nos tocos de bambu que ganhei do dono do sítio e acordei ansioso para começar a cortar aquela madeira ainda úmida, de casca escura e miolo branco. Gomos de quase meio metro, com paredes grossas, exigiam ferramenta apropriada ao trabalho pesado.

Sempre tive atração pelas ferramentas e admiração por seus inventores. Gosto de tentar identificar as necessidade que determinaram o seu surgimento. Tenho especial predileção por uma pequena foice feita artesanalmente a partir de aço de mola de caminhão, que carrego comigo há quase 30 anos. Afiada, cabo anatômico e perfeitamente balanceada, ela é própria para golpes contundentes e certeiros.

Depois de amolar a foice com todo o cuidado, comecei a trabalhar compulsivamente. No início, cortava por cortar, pelo simples prazer de ver a lâmina entrando na madeira, tirando lascas. Em seguida, passei a tentar calibrar os golpes em busca de precisão e da satisfação de cortar no lugar exato. O braço dolorido pelo esforço repetitivo e a fraqueza geral do corpo dificultavam o controle dos movimentos. Aprendi que a troca de ferramentas possibilitava a mudança do esforço requerido, descansando a musculatura.

Com a lâmina de um canivete comecei a transformar as formas brutas geradas com a foice em superfícies e curvas regulares. Notei que a alternância das ferramentas aumenta o domínio do processo e permite refinar o formato das peças.

Da generosidade dos amigos vieram os primeiros elogios àquelas colheres grandes e toscas. Com o passar dos dias, aprendi que ao secar, o bambu perde volume e isto modifica a forma original das peças. Pela força da natureza o que é plano vai se tornando curvo e o liso, irregular. O acabamento perde qualidade, comprometendo a beleza dos objetos e a fama do artesão.

Um velho marceneiro me ensinou a usar o calor para acelerar o processo de secagem do bambu. Com isso, entraram em cena um pequeno maçarico e o forno do fogão a gás. O calor da chama lançada sobre a casca do bambu faz brotar uma espécie de líquido denso,  que ao ser limpo com um pano úmido, deixa à mostra um verniz brilhante. Na câmara aquecida o bambu expele jatos de vapor no sentido das fibras. O cheiro forte e doce, vindo da cozinha, fazia lembrar o tempo das varas de pescar e provocava protestos amistosos dos familiares.

O uso experimental do forno de microondas garantiu um importante salto qualitativo ao processo, permitindo um controle maior na secagem de peças pequenas.

Trabalhar o bambu seco exigia mais força física e ferramentas mais afiadas. Em compensação, permitia o uso de lixas e cacos de vidro para dar acabamento às superfícies, melhorar a concordância entre planos, aumentar a exatidão das arestas e obter curvas mais suaves e precisas.

Com o tempo aprendi que as brocas se alimentam da seiva do bambu que, dizem, contém algum tipo de glicose. Elas produziram verdadeiros túneis e canais em todas as peças feitas com bambu trazidos do sítio. Um pó branco, finíssimo, anunciava a presença dos insetos e a perda da peça.

A partir dessa constatação incorporei os ensinamentos da sabedoria dos homens do campo: o bambu, como as demais madeiras, deve ser cortado na lua minguante e de preferência no tempo frio, quando a quantidade de seiva está bem reduzida.

Aos poucos, fui experimentando outras ferramentas existentes na casa: serrote, serra de metal, formão, goiva, grosa, lixas, lâmina de cortar couro. Cada qual contribuía, a seu modo e dentro de certos limites, para ampliar as possibilidades de intervenção no bambu. Essa busca me levou a utilizar o piso da calçada, o vidro da porta da sala e a superfície inferior do tampo de granito da mesa.

A necessidade me fez desenvolver um suporte de lixa de forma cilíndrica, de diâmetro e consistência inteiramente variáveis, de grande utilidade na obtenção de curvas suaves.

O barulho provocado por uma lixadeira elétrica mostrou-se inteiramente desagradável e incompatível com o ambiente. Ao devolver aquela máquina ao seu proprietário, eu estava decidido a trabalhar com ferramentas simples, acionadas apenas pela habilidade das minhas mãos.

Como engenheiro industrial e especialista em desenvolvimento tecnológico sempre dependi do uso do intelecto, da razão e da objetividade. Naquele momento, afastado do mundo dos negócios, eu me sentia inteiramente desobrigado da racionalidade dos modelos e do rigor do pensamento. Movia-me, agora, condicionado somente pelas sensações próprias do trabalho manual, algo que muitas pessoas nem imaginam existir.

Aos poucos pude perceber que ao trabalhar sem saber onde se pretende chegar, a curiosidade substitui, com grande vantagem, a ansiedade e o medo de não conseguir obter o resultado desejado.

Percebi que cada atividade traz consigo uma sutil dimensão sensorial que oferece pequenos estímulos ao ego e orienta os movimentos subsequentes das mãos. A textura das superfícies, o ruído provocado pela lâmina e o cheiro de queimado sugerem o momento de parar ou de substituir a ferramenta. A precisão de cada golpe e a obtenção de uma reta perfeita são motivos suficientes para pequenos sorrisos. A destreza no uso de cada ferramenta amplia as possibilidades de criação.

Produzir superfícies côncavas com a ponta de uma lâmina, em substituição a uma goiva, exige muita paciência, mas é um ótimo desafio. A exigência da simetria pode parecer irrelevante para muita gente, mas serve para confirmar a capacidade de obtê-la sem a ajuda de instrumentos.

Gosto de produzir com movimentos regulares e repetitivos e acompanhar a evolução gradual dos seus efeitos. Me diverte usar as fibras do bambu como curva de nível e extrair com uma pequena lâmina, longas tiras do bambu em forma de caracol. Quanto mais fina e homogênea a espessura delas, maiores as chances de sorrir. O bambu tem que estar bem seco.

Experimentei a dor e a frustração de ter uma peça inviabilizada pela imprecisão do corte. Detesto ser obrigado a interromper o trabalho em função de um descuido ou erro meu.

Intuitivamente fui desenvolvendo aos poucos práticas que ajudam a minimizar os riscos de fracasso. Além de concentração das atenções no que está acontecendo, aprendi que cada pedaço de bambu é único. Sendo assim, é absolutamente indispensável conhecer e considerar as suas especificidades.

O colorido do verniz, uma irregularidade na seção do gomo, uma variação na espessura da parede, um mancha na casca, são partes de um mesmo jogo de quebra-cabeça.

No processo de criação de cada peça a atitude de valorizar algumas das características de um determinado pedaço de bambu se complementa com a de contornar seus defeitos.

Na maioria das vezes, as formas acabadas surgem da sucessão de operações de retirada de material alternadas com momentos de observação. Identificar as falhas é tarefa indispensável para se conseguir saná-las. A perfeição é a ausência de defeitos.

Observei, na prática diária, que os resultados obtidos com cada ferramenta são limitados e incluem pequenas imperfeições. Da mesma forma, percebi a grande utilidade da luz incidindo tranversalmente sobre a peça e do contraste com um fundo escuro para facilitar a identificação de pequenas falhas. As pontas dos dedos são delicados sensores na execução dessa atividade, mesmo no escuro. 

A minha bancada de trabalho é repleta de ferramentas, peças inacabadas, objetos sem utilidade aparente e muitos pedaços de bambu. Ela oferece muitas opções para quem pretenda brincar com madeira. Em silêncio, gosto de observar e organizar aquilo tudo como parte de um ritual de seleção do pedaço de bambu que vou desbastar. Nesse processo, curiosamente, a escolha parece acontecer sem qualquer razão determinante. Sem que eu saiba os motivos, alguns pedaços aguardam a sua vez há mais de dois anos.

A bancada fica ao lado da televisão da sala de estar, onde as pessoas da casa gostam se reunir. As atividades que não produzem ruído facilitam o prazer de trabalhar conversando e sobretudo ouvindo conversas dos outros. Em função dos ruídos da lixa e dos golpes com o porrete, sou convidado a me afastar. Em compensação, adquiri o direito de deixar rastros de bambu pelos demais cantos da casa.

Em função da portabilidade das ferramentas que utilizo e do tamanho reduzido das peças que faço, posso trabalhar no jardim, na varanda e na mesa da cozinha. Muitas vezes carrego ferramentas e bambus para a casa de amigos. Eventualmente produzo no trem, no cinema, em reuniões de trabalho.

Adoro fazer colheres na areia da praia deserta, durante minhas caminhadas diárias em busca de saúde. Gosto da sincronização do ritmo do corte com a cadência dos passos. Parece que isso ajuda a organizar o pensamento.

Nessas horas, quando estou sozinho, minhas atenções se concentram nos temas da vida, da empresa que tenho, nas pessoas de que gosto. É bom poder reter na mente a imagem da pessoa para quem estou fazendo uma peça. E isto pode durar horas seguidas. 

Como não vendo as peças que faço, o destino da grande maioria delas é o fundo de uma caixa de papelão localizada debaixo da minha bancada.

Algumas poucas, as mais longas, colocadas dentro de potes de bambu gigante, ajudam a tornar agradável o ambiente daquela oficina caseira. Gosto de tê-las por perto, testemunhando o que um dia consegui fazer com as mãos a partir de pedaços de bambu.

Acredito que durante os últimos 6 anos tenha feito mais de 900 peças, na sua maioria colheres e espátulas. Apenas três garfos e muitos objetos sem uso qualquer utilidade prática.

O curioso é que todas são diferentes umas das outras, seja por imposição do bambu, seja pela simples satisfação de criar formas diferenciadas. A identificação de qualquer similaridade entre peças gera automaticamente um impulso para extinguí-la.

Algumas delas são especialmente significativas em função da estética, da origem da matéria-prima, da dificuldade em gerá-las. Confesso que tenho predileção por aquelas que expressam as peculiaridades do bambu e que oferecem suavidade ao tato.

Me divirto vendo a reação as pessoas diante das minhas colheres. Algumas se limitam apenas a querer saber a utilidade, o destino, o valor comercial. Outras, as que prefiro, tocam as peças com as mãos e com a alma. Parece que uma espécie de mágica acontece e elas começam a fazer gestos e movimentos típicos do uso imaginado para cada uma delas. Para essas pessoas, as peças de bambu produzem sonhos e emoções, que as transformam em cozinheiros famosos e hábeis espadachins. Normalmente elas me pedem uma para levar consigo. Nego, embora constrangido, sempre prometendo que vou providenciar.

Definitivamente o bambu exerce uma espécie de fascínio sobre algumas pessoas. Talvez isso ajude a explicar o convite que recebi para apresentar minhas peças na EXEMPLA 2002.

Quem vê uma peça pronta, por certo não consegue imaginar que aquela é apenas a última das formas que foram sendo obtidas durante o processo. Antes daquela existiram mais de mil, que se perderam na sucessão dos golpes e no desbaste com lixa.

Digo isso porque a partir de certo momento do processo os objetos estão praticamente prontos e acabados. A espessura e o formato do cabo, as linhas das curvas das concha, o acabamento e regularidade das superfícies, a harmonia e o equilíbrio do conjunto podem sugerir que a peça esteja finalizada.

Gosto de constatar uma espécie de enigma que se faz presente no embate entre o estado permanente do quase pronto e o momento da finalização de cada peça. Uma delicada equação que quase sempre se resolve.

 

Alvaro Abreu
Vitória, 19 de dezembro de 2001